O Sapateiro

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O Sapateiro 

Meu pai envelheceu aqui atrás desse balcão fazendo sandálias e consertando sapatos. 
Meu pai foi um homem trabalhador, triste e muito infeliz;  traído e abandonado pela mulher que ele tanto amou. Aqui entre couro, sola e sapatos, meu velho pai esquecia as dores e sua ferida no peito causada por um amor ingrato. Meu pai morreu de tristeza no dia mais triste do ano, 2 de novembro,  como dizia meu avô: _ Dia de los muertos.
Ali estão as coisinhas que meu pai deixou: um altarzinho ao Santo Carpinteiro e a Oração do Creio.

Envelheci atrás desse bancão fazendo sandálias consertando sapatos, aliviando pés cansados, acertando os passos de pés machucados. Fui muito feliz, amei a mulher que eu sempre quis, dancei quando era para dançar, chorei quando era para chorar e falei quando era para falar, em alguns momentos fiquei em silêncio; as palavras  eram dispensáveis,  fui filósofo, poeta, místico e sapateiro dedicado e amante desse ofício. Aprendi a orar sem cessar com a Filocália dos Padre do Deserto, encontrei o caminho, carreguei a cruz  e depois de uma longa caminhada encontrei a luz...

Não deixarei a loja de sapatos para o meu menino. Hoje as fábricas produzem sapatos baratos  para o mundo inteiro, não há espaço para um trabalhar braçal,  para um fazedor de sapatos sobre encomenda.
Não há lágrimas e nem tristeza em meu olhar, compreendo a mandala da vida, e meu tempo do fim chegou suave como a luz de uma manhã de domingo em dias do mês de maio. Vou alegre como um agricultor no dia da abundante coleita.  

José Nunes Pereira 



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