pensamento laico

 A religião exprime, do seu modo, através de uma linguagem simbólica, coisas verdadeiras. Não se deve perder estas verdades junto com os símbolos que são rejeitados; é preciso reencontrá-las, projetando-as no plano do pensamento laico. (Fauconnet 2013:23)

O espírito de disciplina é ao mesmo tempo a ciência da e a simpatia pela regularidade e limitação dos desejos. Ele implica o respeito da regra, que obriga o indivíduo a inibir impulsos e se esforçar. Por que a vida social exige regularidade, limitação e esforço? Além disso, como o indivíduo consegue, afinal, aceitar estas penosas exigências, condições para a sua própria felicidade? Responder a estas perguntas equivale a dizer qual é a função da disciplina. Como a sociedade pode estar apta a impor a disciplina e, principalmente, despertar no indivíduo o sentimento do respeito devido à autoridade de um imperativo categórico, que surge como transcendente? Responder a esta pergunta equivale a refletir sobre a natureza da disciplina e seu fundamento racional. Enfim, por que a regra pode e deve ser concebida como independente de qualquer simbolismo religioso e mesmo metafísico? O que esta laicização da disciplina modifica no próprio conteúdo da ideia de disciplina, naquilo que ela exige e permite? Aqui, associamos a natureza e função da disciplina, não mais às condições da civilização em geral, mas àquelas específicas da existência da civilização em que vivemos. E buscamos saber se o espírito de disciplina que pertence a nós, franceses, é realmente tudo aquilo que ele deve ser, se não está patologicamente enfraquecido, e como a educação, respeitando os seus caracteres próprios, pode melhorar a nossa moralidade nacional. (Fauconnet 2013:25-6)


[J]á quiseram afirmar que, segundo ele [Durkheim], a coerção era a única ação que a sociedade exercia sobre o indivíduo. Sua verdadeira doutrina é infinitamente mais compreensível, e talvez não haja nenhuma filosofia moral que se assemelhe a ela neste ponto. Ele demonstrou muito bem, por exemplo, que as forças morais, que compelem e mesmo agridem a natureza animal do homem, também exercem neste último uma atração, uma sedução. É a estes dois aspectos do fato moral que ambas as noções de dever e de bem respondem. (Fauconnet 2013:27)

Junto com tantos grandes pedagogos, Durkheim recomenda […], o que chamamos, através de um termo bárbaro, de cultura formal: formar o espírito, e não preenchê-lo. […] A memória, a atenção e a faculdade de associação são disposições congênitas na criança, que se desenvolvem quando exercitadas e somente no contexto da experiência individual, seja qual for o objeto ao qual estas faculdades se aplicarem. As idéias diretrizes elaboradas pela nossa civilização são, pelo contrário, ideias coletivas que devem ser transmitidas à criança, pois ela não saberia elaborá-las sozinha. Ninguém reinventa a ciência com a sua experiência própria, já que ela é social, e não individual, e já que ela se aprende. Sem dúvida, ela não é transvasada de uma mente para outra: é o próprio vaso, ou seja, a inteligência, que se deve modelar pela e a partir da ciência. Assim, embora as ideias diretrizes sejam formais, não é possível transmiti-las vazias. (Fauconnet 2013:31-2)


A autonomia é a atitude de uma consciência que aceita as regras porque reconhece que elas sejam racionalmente fundamentadas. Ela supõe a aplicação livre, porém metódica, da inteligência no exame das regras já prontas que a criança recebe primeiro da sociedade na qual ela está crescendo. Longe de aceitá-las passivamente, a criança deve pouco a pouco aprender a animá-las, conciliá-las, eliminar ou reformar seus elementos obsoletos para adaptá-los às condições de existência cambiantes da sociedade da qual ela acaba se tornando um membro ativo. Durkheim diz que é a ciência que confere autonomia. Somente ela ensina a reconhecer o que é fundamentado na natureza das coisas – natureza física, mas também moral. Somente ela ensina a reconhecer o que é inelutável, modificável, normal, quais são afinal os limites da ação eficaz para melhorar a natureza, tanto física quanto moral. Deste ponto de vista, todo ensino tem um destino moral, desde o ensino das ciências cosmológicas até (e sobretudo) o ensino do próprio homem, pela História e Sociologia. (Fauconnet 2013:28)




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