Pedagogia da Autonomia - Paulo Freire

Pedagogia da Autonomia - Paulo Freire
(FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. 15. ed. São Paulo : Paz e Terra, 2000.)


"Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção. E uma das condições necessárias a pensar certo é não estarmos demasiado certo certo de nossas certezas. A prática educativa tem de ser, em si, um testemunho rigoroso de decência e de pureza. Educar é substantivamente formar. Pensar certo, demanda profundidade e não superficialidade na compreensão e na interpretação dos fatos. Não é possível ao professor pensar que pensa certo mas ao mesmo tempo perguntar ao aluno se "sabe com quem está falando". O clima de quem pensa certo é o de quem busca seriamente a segurança na argumentação, é o de quem, discordando do seu oponente não tem por que contra ele ou contra ela nutrir uma raiva desmedida, bem maior, às vezes, do que a razão mesma da discordância. Às vezes, mal se imagina o que pode passar a representar na vida de um aluno um simples gesto do professor. O que pode um gesto aparentemente insignificante valer como força formadora ou como contribuição à do educando por si mesmo. O ensino dos conteúdos não deve ser entendido como transferência do saber. Nada do que experimentei em minha atividade docente deve necessariamente repetir-se. Exercitaremos tanto mais e melhor a nossa capacidade de aprender e de ensinar quanto mais sujeitos e não puros objetos do processo nos façamos. Saber que devo respeito à autonomia e à identidade do educando exige de mim uma prática em tudo coerente com este saber. O respeito devido à dignidade do educando não me permite subestimar (...) zombar do saber que ele traz consigo para a escola. (...) saber ingênuo a ser superado pelo saber produzido através do exercício da curiosidade epistemológica. As qualidades ou virtudes são construídas por nós no esforço que nos impomos para diminuir a distância entre o que dizemos e o que fazemos. A luta em favor do respeito aos educadores e à educação inclui que a briga por salários menos imorais é um dever irrecusável e não só um direito deles. Como ser educador, se não desenvolvo em mim a indispensável amorosidade aos educandos com quem me comprometo e ao próprio processo formador de que sou parte? Não posso desgostar do que faço sob pena de não fazê-lo bem. Desrespeitado como gente no desprezo a que é relegada a prática pedagógica não tenho porque desamá-la e aos educandos. Não tenho por que exercê-la mal. Aceito até abandoná-la, cansado, à procura de melhores dias. O que não é possível é, ficando nela, aviltá-la com o desdém de mim mesmo e dos educandos. O sujeito crítico, epistemologicamente curioso, que constrói o conhecimento do objeto ou participa de sua construção. Como reconstruir um mal aprendizado? Através da habilidade de aprender a substantividade do objeto (...) o em que o aprendiz foi puro paciente da transferência do conhecimento feita pelo educador. [2.6] Meu papel no mundo não é só o de quem constata o que ocorre mas também o de quem intervém como sujeito de ocorrências. Como alfabetizar sem conhecimento precisos sobre a aquisição da linguagem, sobre linguagem e ideologia, sobre técnicas e métodos do ensino da leitura e da escrita? "