Hiperatividade: Entrevista da Dra. Nadia Bossa para a Revista Atividades & Experiências

Entrevista da Dra. Nadia Bossa para a Revista Atividades & Experiências
O que é, o que é: é desatento, não pára quieto, é impulsivo e não vai bem na escola? Se você está convencido de que a resposta é “meu filho”, leia as próximas linhas com atenção!
Hoje, em todos os cantos, ouvimos a palavra hiperatividade, que já virou, inclusive, desculpa para comportamentos inadequados de algumas crianças. Bastam atitudes mais afoitas para uma criança ser classificada como hiperativa. Mas cuidado: há uma linha muito tênue entre “ser” e “estar”, ou seja, um distúrbio e um estado de espírito.
Diferenças
Primeiro, cabe aqui esclarecermos as diferença – à primeira vista sutis – que existem entre os termos dificuldades e distúrbios. No que diz respeito à aprendizagem, as dificuldades podem ser os problemas que interferem nesse processo, decorrentes, por exemplo, da capacitação do professor, da proposta pedagógica, de dificuldades socioeconômicas ou de questões familiares. São obstáculos passageiros em determinados momentos da vida de uma pessoa.
Por outro lado, a palavra distúrbio tem um significado bastante diferente. “Pode ser uma interferência no processo normal de aprendizagem, como uma dificuldade em aprender a ler, no processo de escrita, na comunicação ou na linguagem oral, mas sempre de origem neurológica”, explica a pedagoga Maria Cristina Bromberg, mestre em Distúrbios do Desenvolvimento.
De acordo com a psicóloga Adriana Franco, da Universidade Positivo, localizada em Curitiba (PR), o distúrbio acarreta a perda de uma ou mais capacidades de processar as informações que chegam em condições ideais e exige, além de adaptações curriculares específicas, um pouco mais. “Nos distúrbios de aprendizagem, não interessa apenas o desempenho escolar, mas todas as relações de aprendizagem que a criança ou o jovem estabelece, e isso inclui as de ordem pessoal”, orienta.
Para a psicopedagoga Nadia Bossa, doutora em Psicologia e Educação, tradicionalmente o termo distúrbio é reservado àqueles obstáculos para a aprendizagem que têm uma causa orgânica, como, por exemplo, problemas neurológicos ou endócrinos. “Atualmente, o termo distúrbio tem sido substituído por transtorno e abrange as chamadas dificuldades específicas do aprendizado escolar, como transtornos da leitura, escrita e transtorno na matemática, completa. Mas o que isso tudo tem a ver com a tal hiperatividade? É que a hiperatividade faz parte de algo maior, um distúrbio que vamos conhecer a seguir.

TDA/H?

O nome correto é complicado: Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade – TDA/H. É o distúrbio neurocomportamental mais comum na infância. O TDA/H é uma tríade, caracterizada pelas seguintes características: desatenção, impulsividade e hiperatividade. E aí entra a protagonista da nossa história: a hiperatividade é apenas um “sintoma” desse distúrbio. Com base nos sinais que a pessoa apresenta, os indivíduos portadores de TDA/H podem ser classificados em três subtipos: pred0ominantemente hiperativo, predominantemente desatento e tipo combinado. “Existem pessoas que têm mais desatenção do que hiperatividade, então o perfil dela vai ser mais desatento, e assim por diante”, explica Maria Cristina. A história dela com o TDA/H é bastante é bastante comum nessa área: a pedagoga tem dois filhos com o transtorno, que hoje ela sabe ter sido herdado do marido. Isso confirma uma das estatísticas que envolvem o TDA/H, que diz que o distúrbio é genético. “Quando se diagnostica uma criança com TDA/H, há 40% de chance de um dos pais apresentar o transtorno”, explica.
Segundo Nadia Bossa, os principais fatores implicados nas causas do TDA/H são de natureza genética, biológica e psicossocial. Mas o grande mito que envolve esse transtorno é o de que o TDA/H se manifesta em crianças que vêm de famílias desestruturadas. O que os especialistas mostram é justamente o contrário: normalmente, as pessoas com o transtorno tornam o ambiente familiar tumultuado e é comum terem mais problemas nas áreas pessoal, familiar, escolar e nos relacionamentos.
Diagnóstico
De acordo com o norte-americano Russell A. Bar-kley, renomado especialista em TDA/H, 70 a 80% das pessoas que têm o transtorno carregam o problema para a vida adulta, 30 a 50% repetem o ano pelo menos uma vez na vida e 35% não terminam o Ensino Médio. Além disso, essas pessoas têm quatro vezes mais problemas relacionados com trânsito, como acidentes. Para evitar ser vítima dessas estatísticas, a saída recomendada pelos especialistas é o diagnóstico precoce. “Quanto mais cedo, melhor a resposta cerebral. É um grande equívoco pensar que, com o passar do tempo, a coisa se resolve sozinha”, alerta Nadia. Para saber se há algo errado com a criança, os pais precisam exercitar a capacidade de observação. Acompanhar os filhos na execução das tarefas escolares, observar o desempenho nas atividades do cotidiano – arrumar a cama, cozinhar e cuidar do animalzinho de estimação – são oportunidades de identificar problemas que podem atrapalhar o processo de aprendizagem.
Existem avaliações específicas que permitem um diagnóstico do TDA/H e indicam que tipo de inter4venção é a mais adequada na hora do tratamento, que pode ser feito por meio da psicoeducação, de medidas multidisciplinares e também de remédios. Mas a decisão quanto ao tratamento medicamentoso cabe à família, em parceria com o médico. “O diagnóstico de TDA/H é essencialmente clínico, baseado em critérios claros e bem definidos. A característica fundamental do transtorno é um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade mais freqüente e intenso do que aquele apresentado por indivíduos de nível equivalente de desenvolvimento”, explica Nadia Bossa.
Traquinagem
Geralmente as crianças que apresentam TDA/H são taxadas de “traquinas”, pois têm dificuldade para ficar quietas e/ou se concentrar. No entanto, essa é uma dificuldade biológica e não moral, como muitos pensam. “Quando estamos em um ambiente muito iluminado, nossa pálpebra se fecha involuntariamente. Com a criança com TDA/H é a mesma coisa: ela é um receptáculo desse mundo de estímulos que temos a nossa volta, mas não tem controle de resposta a esses estímulos”, explica a pedagoga. É importante enfatizar a diferença entre o que é moral e o que é fisiológico, para que não haja preconceito contra aqueles que possuem esse problema. “Há uma tendência natural de querer minimizar o problema, então é mais fácil dizer que a criança é preguiçosa ou irresponsável do que analisar o que se passa”, diz Nadia. “O que se sabe até agora é que o portador de TDA/H tem um metabolismo de neurotransmissores lento. A criança leva tempo para reagir, ou não reage, ou não entende. Já a criança inquieta sabe que, em determinados momentos, tem que ficar quieta, mas o cérebro não acata”, conta.
A própria criança que tem TDA/H se sente diferente: ela tem dificuldade de desempenho não apenas nas coisas difíceis, mas nas coisas que gosta e sente prazer, porque não consegue continuar a fazer algo que demanda atenção. “TDA/H é diferente de distração. Distração acontece às vezes: no transtorno, as características são freqüentes”, diferencia Maria Cristina.
Segundo pesquisas sobre o tema, o TDA/H atinge de 3 a 6% das crianças em idade escolar e, nos Estados Unidos, é considerado um problema de saúde pública. Mas se existe uma dificuldade de atenção, como a criança vai conseguir aprender? Segundo Maria Cristina, ela aprende, mas com dificuldade, principalmente inserida no modelo escolar que temos hoje. “A criança é colo0cada na escola com determinada idade e tem que se adaptar ao que é pedido, não é a escola que ensina o que a criança está pronta para aprender”, explica. Assim, começam os problemas: uma criança com déficit de atenção, por exemplo, não aprende igual àquela que não tem nenhuma dificuldade. Ela precisa de mais recursos, de mais motivação, de mais tempo e de mais acompanhamento. Para a pedagoga, as crianças estão sendo estimuladas cada vez mais cedo, quando ainda não estão neurologicamente maduras. “A criança só está pronta para a alfabetização a partir dos seis, sete anos. Às vezes, ela simplesmente não aprende porque ainda não está na hora de aprender”, critica.
Empurra-empurra
“Joãozinho foi para casa um recado da professora: Senhora mãe, o seu filho hoje não fez a lição de matemática, não quis participar da aula, foi malcriado e bateu no coleguinha no recreio. Favor tomar providências. No dia seguinte, Joãozinho entrega a resposta de sua mãe para a professora: Senhora professora, o seu aluno não fez a lição de casa, bateu na irmãzinha e foi malcriado com o pai. Favor tomar providências.”
Essa história foi contada por ária Cristina Bromberg para exemplificar o “empurra-empurra”, que se tornou a questão da responsabilidade quanto ao comportamento das crianças nos dias de hoje. É apenas uma anedota, mas muitas famílias vivem um problema parecido: não sabem como lidar com as dificuldades de seus filhos nos processos de desenvolvimento e de aprendizagem. “Na verdade, as coisas estão se confundindo: cada um está tentando responsabilizar o outro ao invés de trabalhar em parceria. Família e escola têm que se dar as mãos e ver o que é melhor para a criança”, opina.
Segundo a especialista, o primeiro passo para lidar com a criança com TDA/H é identificar as dificuldades que ela apresenta: se não pára quieta, se manipula muito os objetos, se tem necessidade de tocar as pessoas, apresenta energia constante inesperada etc. “As pessoas que convivem com essa criança têm que ter em mente que o comportamento não é deliberado, a criança não se comporta dessa forma para atingir alguém. Esse nível de atividade e impulsividade é fisiológico”, orienta.
Entendido isso, o próximo passo é dar liberdade para que a criança levante quando precisar, que, na escola, vá ao quadro-negro ou ao banheiro. E isso, segundo a pedagoga, pode ser permitido a todas as crianças. Na opinião de Maria Cristina, de modo geral o professor atende às necessidades de quem não tem problema. “O professor tem que modificar sua maneira de trabalho, porque, se ele fizer tudo o que a gente recomenda para crianças com TDA/H, vai beneficiar todos os alunos. Se não fizer, vai atender somente aos que não têm nada”, assegura.
Quem convive com o portador de TDA/H sabe quando ele começa a passar dos limites. Para essas horas, a especialista indica algumas técnicas preventivas. “É só propor atividades que distraiam a criança. O professor pode chamá-la para ser assistente de classe, para que ela possa levantar e descarregar a energia”, sugere Maria Cristina. Para os pais, recomenda-se ensinar a criança a ser organizada, não deixar que ela durma sem arrumar o quarto, ter horário e rotina, tanto para a escola quanto para os momentos em família. “Os pais têm que dar o máximo de adequação para a criança responder ao que se espera dela. Isso é extremamente importante para a qualidade de vida da criança e da família”, completa Maria Cristina.

Além do TDA/H

Outros distúrbios bastantes comuns na infância são aqueles relacionados à leitura, à escrita e à fala. “Os transtornos na escrita podem estar associados a problemas psicomotores, e então temos um caso de disgrafia; podem ser decorrentes de dificuldades cognitivas na identificação, decodificação e interpretação dos símbolos da escrita (letras), e então temos um caso de dislexia; ou ainda podem estar relacionados à compreensão das regras ortográficas, e neste caso teremos uma disortografia (ou disgrafia). Temos ainda problemas de leitura e escrita relacionados a fatores emocionais, problemas de fala (dislalia), entre outros”, diferencia a psicopedagoga Nadia Bossa, doutora em Psicologia e Educação. Existe ainda a discalculia, mais difícil de reconhecer e que concentra poucos especialistas no assunto, que se trata da dificuldade com os cálculos matemáticos.