O Elogio da Loucura

“A propósito de gramática, quero contar-vos uma bonita história: a história é verídica e, se eu
estiver mentindo, quero ter todos os gramáticos contra mim (vede só que terrível declaração!).
Conheço um homem de sessenta anos que conhece perfeitamente o grego, o latim, as matemáticas, a
filosofia, a medicina. Pois seríeis capazes de adivinhar com que se preocupa esse sábio universal, há
uns vinte anos? Tendo abandonado todos os estudos, dedica-se exclusivamente à gramática, pondo o
cérebro num tormento contínuo. Só ama a vida para ter tempo de dirimir algumas dificuldades dessa
importante arte, e morreria satisfeito se distinguisse um método de distinguir bem as oito partes do
discurso, coisa que, a seu ver, não conseguiram com perfeição nem os gregos nem os latinos. Bem
vedes que é uma questão de suma importância para o gênero humano. Com efeito, não é mesmo uma
miséria estar sempre correndo o risco de tomar uma conjunção por um advérbio. Um tal equívoco
mereceria uma guerra cruenta.”

(Erasmo de Roterdan. O Elogio da Loucura. São Paulo, Martin Claret,p.72,2000)

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