Modernismos e política


A prosa de ficção encaminhada para o "realismo bruto" de Jorge Amado, de José Lins do Rego, de Érico Veríssimo e, em parte, de Graciliano Ramos, beneficiou-se amplamente da "descida" à linguagem oral, aos brasileirismos e regionalismos léxicos e sintáticos, que a prosa modernista tinha preparado. E até mesmo em direções que parecem espiritualmente mais afastadas de 22 (o romance intimista de Otávio de Faria, Lúcio Cardoso, Cornélio Pena), sente-se o desrecalque psicológico "freudiano-surrealista" ou "freudiano-expressionista" que também chegou até nós com as águas do modernismo (Bosi, 1977, pp. 431-432).

Colocado em xeque o passado próximo, urgia construir de vez a arte brasileira à luz de uma consciência política, que punha em primeiro lugar o Brasil "real" e não mais a projeção utópica do início dos anos 20, na qual o futurismo havia desempenhado um papel fundamental como exemplo de ação e como explicitação de uma modernidade positiva, enfeixada na imagem emblemática de São Paulo (Fabris,1994, p. 285).

À distância, apesar da proximidade, entre os modernistas e os romancistas de 30; apesar da distância, entre "sociais" e "intimistas"; ambas as coisas podem ser mais bem sentidas se projetadas numa figura a que o romance de 30 dedicou toda a sua energia de criação, o fracassado. Não é à toa que o primeiro a apontar a recorrência dessa figura, para reprová-la, seja um modernista, Mário de Andrade (Idem, p. 74).

[...] mora sossegado na sua província, e não foi para capital buscar emprego nem consagração. O seu encanto vem muito deste aspecto provinciano, a que raramente se resignam os intelectuais e que contribui certamente para a sua simplicidade, para a naturalidade quase familiar das suas relações com os leitores. De certo foi este afastamento dos grandes centros literários que lhe permitiu a atitude desassombrada de escritor para o povo, escritor acessível que exprime por princípio uma certa ordem de ideias e sentimentos de que o povo, o seu povo, possa participar (Candido, s/d, p. 75).

O amanuense Belmiro é o livro de um burocrata lírico. Um homem sentimental e tolhido, fortemente tolhido pelo excesso de vida interior, escreve seu diário e conta as suas histórias. Para ele, escrever é, de fato, evadir-se da vida; é a única maneira de suportar a volta às suas decepções, pois escrevendo-as, pensando-as, analisando-as, o amanuense estabelece uma espécie de báscula entre a realidade e o sonho. "Quem quiser fale mal da literatura. Quanto a mim, direi que devo a ela a minha salvação. Venho da rua deprimido, escrevo dez linhas torno-me olímpico... Em verdade vos digo: quem escreve neste caderno não é o homem fraco que há pouco entrou no escritório. É um homem poderoso, que espia para dentro, sorri e diz: 'Ora bolas'" (Candido, s/d, p. 84).

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