O senso crítico: Barbeiro:"O espírito crítico do brasileiro ainda é pequeno"


Francisco Viana e Ricardo Bressan*
De São Paulo
O Jornalista Heródoto Barbeiro, há oito meses à frente do jornalismo da Record, dispensa apresentações. É uma presença viva e firme na imprensa brasileira. Nesta entrevista, ele analisa o jornalismo de televisão e afirma que o país está se democratizando.
Confira a entrevista.
Terra Magazine - As denúncias contra a corrupção vêm crescendo no Brasil. Como repercutem na televisão ?
Heródoto Barbeiro - 
O impacto hoje é menor que há cinco anos. Quando a denúncia chega à televisão, provavelmente, já passou pela internet e por todas as ferramentas da própria da própria internet. Então, raramente alguma notícia é dada com exclusividade na televisão. Mas a própria televisão tem suas ferramentas de comunicação nas redes sociais vai aquecendo o noticiário durante o dia no twitter, no facebook. Por e-mail as pessoas falam, publicam nos sites. Portanto, a televisão não tem mais aquele monopólio do impacto que tinha há cinco anos, graças ao advento das redes sociais.
As revistas desenvolveram critérios de apuração de exclusividade, sobretudo, nesse campo de denúncias. A televisão não vem fazendo a mesma coisa? Não tem equipes próprias? 
Sim, a televisão tem equipes próprias. Mas eu creio que ainda os veículos mais investigativos são da imprensa escrita, como jornais, revistas, etc. Acho que eles têm uma tradição maior de apuração, de investigação e uma quantidade de fontes já consolidadas que, geralmente, os veículos eletrônicos não possuem.
Por que tal particularidade? 
A origem está nas próprias características dos veículos. Os veículos eletrônicos de uma maneira geral, isso também inclui aqueles que são propagados via internet, estão muito mais próximos do hard news, mais próximos do cotidiano. Então o que é que sobra para o veículo impresso? Para ele sobra a analise, os artigos, os debates, para ele sobra muita opinião. O que acabou foi o seguinte: "Se o Globo não deu ninguém sabe o que aconteceu". Isso é coisa do passado.
Para você, qual é o critério de publicar uma crise? 
Primeiro, procuro apurar devidamente se o aquilo que estamos publicando é verdade. A maior pisada na bola que nós jornalistas damos, constantemente, é publicar alguma coisa que não aconteceu. Isso é um ponto. Procurar ter uma apuração que se aproxime do que acontece com grandes veículos de credibilidade no mundo, como por exemplo a BBC. Quando o Kadaf morreu. Eu estava trabalhando aqui à tarde. Vários sites internacionais informando que o Kadaf tinha morrido. A BBC News não publicava dizendo que o Kadaf tinha morrido. Depois de duas ou três horas, ai sim, apareceu a BBC dizendo que o Kadaf tinha morrido. Eu conheço um pouco o manual de redação da BBC. Eles não publicam, alguma coisa lá, se não tiverem três fontes dizendo que realmente aquele fato aconteceu. São duas alternativas: ou você cultiva essa confiança do seu público de que quando você publicar, aquilo realmente é um fato real ou vai naquela onda, naquela enxurrada de que todo mundo está dando a notícia, só nós não estamos dando. O que vamos fazer? Vamos dar também. De certa forma, a mídia navega um pouco entre essas duas questões. Agora, eu entendo que quem define, o definidor de tudo isso, é o público. Ou seja, o público fiscalizar, cabe ao público exigir do veículo de comunicação credibilidade. Infelizmente, nós por uma questão histórica, não temos ainda essa tradição, essa construção da cidadania. Essa formação do espírito crítico. De tirar um determinado veículo de nossa lista, se porventura não tem credibilidade. Nós vamos, ainda, muito naquele denuncismo vazio, na celebridade, na personalidade. De atirar pedra num dia e no seguinte nós não falamos nada por que aquele fato não aconteceu.
A que você atribui o fato do brasileiro ainda ser pouco crítico com relação a mídia, apesar de todo o espaço democrático que conquistou? 
Isso se deve fundamentalmente a nossa baixa escolaridade, a nosso baixo desenvolvimento cultural e , principalmente, ao fato que nós não temos uma tradição democrática no nosso país. Em 500 anos de história, efetivamente, tivemos cinqüenta anos de democracia, em duas prestações de 25. Uma que vai de 1946 à 1964 e outra de 1985 pra cá. E democracia não se constrói com duas parcelas de 25. É um processo continuo. Nas democracias liberais consolidadas o processo vem de alguns séculos. No caso britânico, por exemplo, a revolução gloriosa data do final do século XVII. Não temos, ainda, a formação desse espírito crítico. A mídia, assim como os políticos, assim como outros acontecimentos de nosso país, é o retrato daquilo que a população é. Olhamos para uma Câmara Municipal e dizemos: "Meu Deus, como é que nós elegemos esses caras. Porque são eles que representam, infelizmente, a maneira das pessoas serem." Nós estamos naquele nível ali da Câmara Municipal ou da Câmara Federal ou do Senado. A mídia não é diferente.
Contudo, a mídia é criticada diariamente em palestras, nas mídias sociais, nas entrevistas. Como explicar essa dissintonia: A critica verbal de um lado e falta de ação do outro? 
Nós caímos num caso extremamente interessante, que não só se aplica a mídia, mas a outras questões brasileiras. Nós sabemos o que queremos, mas não sabemos como concretizar aquilo que nós queremos. Ninguém quer corrupção, mas ninguém sabe como combater a corrupção. Ninguém quer o Judiciário comprometido, mas nós não sabemos como desenvolver um Judiciário que não seja comprometido e a mesma coisa com a mídia. Nós criticamos a mídia, mas não sabemos, dentro desse mar de opções, que hoje nós temos, uma quantidade inacreditável, hoje, de possibilidades. Nós não somos capazes de selecionar aqueles que não têm credibilidade, para que eles se enfraqueçam. Não, nós damos Ibope, nós compramos jornal, compramos revistas, nós damos audiência na mídia eletrônica, porque de certa forma ele satisfaz ao índice particular de cidadania. Infelizmente.
Esse critério de julgar a mídia se deve mais a um fator de educação, de formação de opinião pública, ou é baseado, primordialmente, no Ibope, no que a população pode querer? 
Há uma simbiose entre aquilo que os donos de veículos de comunicação querem dar e aquilo que a população quer comprar ou quer ver ou assistir. Se analisarmos um desses Reality Shows que estão sempre na moda e pegarmos os índices de Ibope, vamos ver que são altíssimos, alias, eles são os programas mais rentáveis da televisão brasileira. Por que não só vendem o ibope, mas porque vendem merchandising, vendem um monte de coisas. Eu não sou contra, as pessoas têm o direito de escolher aquilo que elas devem ver. Os veículos fazem pesquisas qualitativas para saber o que essa população quer.
E o noticiário. Como fica nesse processo? 
O noticiário sobrevive de duas formas: ou está ancorado em programas que têm grande audiência, como é o caso do Jornal Nacional, que fica entre duas grandes novelas com boa audiência. Ou são programas sensacionalista, de final de tarde. São programas daqueles que se espreme e sai sangue. Falam um monte de bobagem, um monte de coisa, absolutamente sem nenhuma checagem. E há ainda os canais especializados que fazem jornalismo, mas têm audiência diminuta. Eu mesmo trabalho num jornal que tem uma audiência diminuta. Porque atinge um determinado grupo de pessoas que são aquelas que estão interessadas em notícia. Isso dentro da pirâmide brasileira. Não estou falando de pirâmide econômica, estou falando da pirâmide crítica brasileira que infelizmente é muito pequena.
Como fica o papel do jornalista entre tais extremos? 
Eu não sei porque nunca fiz um programa desses bravos. Eu fiz a TV cultura. Fiz rádio, na CBN. Felizmente na Record estou fazendo jornalismo. Eu não, a nossa equipe está fazendo jornalismo. Mas por quê? Temos falado tudo.
O que significa falar tudo? 
É comentar o que quiser. Quem escolhe o que falar é o jornalista, não o veículo.
É isso que seria fazer jornalismo ou teria mais alguma coisa? 
Não, tem muito mais coisas. Mas isso é a base. Fazer jornalismo significa entender o seguinte: o jornalista é um ator social, o jornalismo é um espaço para debate. É preciso estimular a formação do espírito critico das pessoas. O jornalista tem que ser absolutamente plural para que todas as pessoas venham a dizer o que elas pensam a respeito de um assunto. E mais do que ser um formador de opinião, o jornalista é um provocador de opinião. Porque opinião as pessoas têm. Elas precisam ser provocadas.
Cite um exemplo? 
Recentemente, li um artigo publicado na BBC Brasil sobre Aquecimento Global. E tinha lá duas linhas citando o nome de um professor da USP que diz que não existe aquecimento global e estava escrito: "A mídia brasileira não dá espaço para nós." Convidei o professor. Era extremamente frágil, mas tinha o direito, até mesmo pela titulação, de vir aqui e dizer: "Esse negocio de aquecimento global é uma luta entre capitalismo de um lado e o socialismo do outro lado." Eu nunca tinha ouvido falar nesse tema. Mas para mim ele tem o direito de dizer, porque isso provoca a reação das pessoas. E essa reação é que é a formação da opinião crítica.
Como é que é seu relacionamento com as assessorias de imprensa nesse contexto que você está falando? 
Eu sempre me relacionei bem com as assessorias de imprensa, da seguinte forma: podem mandar para mim toda sugestão de pauta, para saber se tem noticia ou não. Se é relevante ou não. Se tem interesse público ou não. Se tiver eu faço. Se não tiver, eu não faço. Porque os interesses privados quando coincidem com o interesse público passam a ser de interesse público.
Essa é a sua definição de notícia? 
É uma das formas. Se é de interesse público é notícia. Eu não posso por exemplo fazer uma matéria dizendo assim: Uma grande empresa de automóveis lança num determinado supermercado um saldão que parou a avenida Marginal. E no outro dia eu escrevo: O supermercado tal caiu o teto em cima dele. Ou seja, eu dou o nome do supermercado quando cai o teto, mas eu não dou o nome quando um outro acontecimento relevante, que é uma venda, pois a pessoas podem suspeitar que eu estou recebendo alguma graninha ou do supermercado ou da montadora de automóvel para dizer o nome da marca. Eu acho que é uma hipocrisia que infelizmente nós ainda não ultrapassamos. Estou falando no geral, do jornalismo brasileiro.
Para que o Brasil transite para uma democracia que saia dessas duas prestações de 25 anos e chegue a uma democracia plena, qual seria o referencial nesse campo de mídia, de televisão? A Inglaterra ou teria outros referenciais? 
Há referenciais históricos como Inglaterra, EUA, a França etc. Mas há um referencial agora de ordem tecnológica, que é uma coisa que as pessoas não estão olhando. Eu faço um pequeno trabalho aqui na periferia de São Paulo. O que a molecada mais gosta lá é de uma rádio na WEB que nós desenvolvemos. Gosta de divulgar pequenas notícias que são coisas da comunidade. Coisas que eles não podiam fazer antes , mas que hoje estão fazendo. Nós estamos deixando de ser apenas o receptores e estamos sendo também emissores de notícias. Emissores de comentários, emissores da nossa maneira de ser. E não é só o pessoal que tem seus grandes lap tops não. Lá na Lan house, lá na periferia, o pessoal faz isso. É uma transformação bem vinda. De baixo para cima, cavalgando nessa tecnologia.
Além dessa, que outras tendências você vê no caso brasileiro hoje? 
Está havendo uma ascensão econômica no Brasil. Começou no governo Lula e propiciou às pessoas a entrarem em determinados lugares, onde elas não entravam. E elas começaram ver coisas que não sabiam que existiam. Eu me lembro que lá na periferia, a escolinha fazia uma excursão para levar as crianças ao shopping. As crianças nunca tinham entrado no shopping. Quer dizer, eu não estou dizendo no aspecto consumista. Estou dizendo que as crianças não entravam no shopping, eram crianças da periferia. Elas viram que existe um outro mundo. E aquilo desperta obviamente o desenvolvimento das pessoas. Ajuda, também, a construção dessa sociedade.
Os conselhos de comunicação que os governos estão criando vão evitar a manipulação do noticiário, despertar o espírito crítico? 
Não. Quem vai mudar é a sociedade. Falo da igreja, da paróquia, da sociedade amiga de bairro, do sindicato, da central sindical. Eu estou falando das organizações que a sociedade monta. Não se dá importância à essas pequenas organizações porque no Brasil tudo é centralizado. Nós temos, também, é uma história de achar que o país descentralizou com a Republica. Na verdade, o nosso federalismo, pelo contrário, ele não federalizou coisa nenhuma. O poder sempre foi central no Brasil e historicamente, sempre foi unitário no Brasil e continua sendo. Arrecadação de imposto vai toda para mão do Governo Federal e ele distribui. Quem tem o dinheiro manda! Mas eu acho que a sociedade está descobrindo pequenos filetes, pelos quais ela circula.
Qual é a mensagem que você dá para quem está iniciando hoje na televisão, para aquele jornalista que está começando nesse mundo da notícia eletrônica? 
A minha sugestão, na verdade, é a seguinte: jornalismo é jornalismo, não importa em qual plataforma ele se propaga. O jornalismo de televisão não é diferente do jornalismo de rádio, não é diferente do jornalismo de jornal. Jornalismo é jornalismo. As regras são as mesmas. O interesse público é o mesmo. O critério de avaliação é o mesmo. De relevância é o mesmo. E, principalmente, os parâmetros éticos são os mesmos. Pode-se dizer: mas tem a tecnicidade de cada um deles. Sim. Mas são coisas que com cursos de final de semana, eu resolvo. Eu não posso entrar numa faculdade de jornalismo e ficar 6 meses aprendendo a lidar com um equipamento. Vou lá no SESC, num curso de final de semana e aprendo. O que que eu preciso discutir? A relevância social do jornalismo. A importância, a contribuição que o jornalismo tem para a democracia. Isso não se discute nas escolas. Porque as escolas pegaram o essencial e fizeram isso virar o supérfluo e pegaram o supérfluo e fizeram disso o essencial.
O supérfluo é a coisa técnica? 
O supérfluo é o técnico. É você mandar um e-mail, é entrar na internet. Isso eu não posso aprender na faculdade. O que eu tenho que discutir na universidade é o seguinte: Como é que nos ajudamos a construir democracia com notícias corretamente apuradas. Uma coisa que nós não fazemos: não damos direito de resposta. E direito de resposta deveria ser uma questão ética, e não uma questão legal, ou tem que ser os dois simultaneamente.
Em outras palavras, nós estamos muito atrasados? 
Nós estamos mudando. Estamos melhor que há 5 anos.
Qual é sua visão de futuro nessa mudança? 
Cada vez há possibilidade de receber noticias, de divulgar notícias, sem passar pelas artérias principais, que são os grandes núcleos de comunicação que existem no país. Nós não dependemos mais deles. Antes se dependia, hoje não se depende mais. Nem língua é mais barreira para se saber coisas. Porque eu não falo alemão, mas se eu souber que tem uma reportagem o programa do computador traduz de uma maneira que eu possa entender. Tudo está fervendo. O caldeirão está fervendo.
*Ricardo Bressan é Jornalista em São Paulo e consultor de Comunicação.
Francisco Viana é jornalista, mestre em filosofia política pela PUC-SP, consultor de empresas e autor do livro Hermes, a divina arte da comunicação. É diretor da Consultoria Hermes Comunicação estratégica (e-mail: viana@hermescomunicacao.com.br)

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